Quando o VAR foi implantado no futebol, uma das críticas mais comuns era que ele tiraria a emoção do jogo ou substituiria a autoridade do árbitro. Alguns anos depois, ficou claro que a proposta nunca foi essa.
O árbitro continua sendo responsável pela decisão final. O que mudou foi a quantidade de informação disponível para ajudá-lo em lances que poderiam ser definidos apenas pela percepção de um único profissional, em poucos segundos e sob pressão.
No recrutamento acontece algo semelhante.
Toda contratação envolve julgamento humano e isso dificilmente vai mudar. Gestores avaliam comportamentos, recrutadores analisam trajetórias e entrevistas continuam sendo uma parte importante da decisão. O problema aparece quando todo o processo depende exclusivamente da percepção individual de quem está avaliando.
Pesquisas em psicologia organizacional mostram que todos nós carregamos vieses inconscientes que podem influenciar decisões sem que percebamos. Similaridade de perfil, formação acadêmica, estilo de comunicação e até características pessoais podem acabar pesando mais do que as competências realmente necessárias para a função.
É justamente nesse ponto que processos estruturados fazem diferença. Definir previamente os critérios de avaliação, utilizar entrevistas estruturadas, incluir mais de um avaliador no processo e recorrer a ferramentas de assessment não elimina o julgamento humano, mas ajuda a dar mais consistência às decisões e reduz o espaço para interpretações puramente subjetivas.
A discussão sobre diversidade e inclusão passa muito por isso. Frequentemente as empresas associam o tema apenas a metas ou representatividade, mas existe uma etapa anterior que merece atenção: a forma como as decisões são tomadas. Quanto mais claros forem os critérios e quanto mais transparente for o processo, menores tendem a ser os impactos dos vieses inconscientes sobre as contratações.
Essa é a principal contribuição do VAR. Ele não existe porque os árbitros são ruins. Existe porque pessoas tomam decisões melhores quando têm acesso a mais informações, mais referências e mais oportunidades de revisar aquilo que pode ter sido influenciado pelo contexto do momento.
No recrutamento, acontece exatamente a mesma coisa. Contratar continuará sendo uma decisão humana. O desafio das organizações mais maduras não é substituir esse julgamento, mas criar processos que ajudem as pessoas a decidir melhor.
Fontes: Harvard Business Review, McKinsey e FIFA